{"id":70291,"date":"2022-08-09T10:59:32","date_gmt":"2022-08-09T14:59:32","guid":{"rendered":"http:\/\/acnudh.org\/?p=70259"},"modified":"2022-08-30T23:10:35","modified_gmt":"2022-08-31T02:10:35","slug":"nossas-historias-na-floresta-amazonica-um-povo-indigena-luta-pela-sobrevivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acnudh.org\/pt-br\/nossas-historias-na-floresta-amazonica-um-povo-indigena-luta-pela-sobrevivencia\/","title":{"rendered":"Nossas hist\u00f3rias | Na floresta amaz\u00f4nica, um\u00a0povo\u00a0ind\u00edgena luta pela sobreviv\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>9 de agosto de 2022 &#8211; Nas profundezas da floresta amaz\u00f4nica, um povo ind\u00edgena que permaneceu relativamente isolado do mundo exterior est\u00e1 travando uma batalha por sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante s\u00e9culos, os yanomami habitaram uma vasta \u00e1rea de florestas intocadas e grandes rios sinuosos na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, vivendo da pesca, a ca\u00e7a e a coleta de frutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os yanomami \u2013que somam cerca de 29 mil pessoas\u2013 dizem que correm s\u00e9rio risco de perder suas terras, cultura e modo de vida tradicional. A cobi\u00e7a pelo ouro e outros minerais valiosos que se encontram sob seus territ\u00f3rios ancestrais atraiu nos \u00faltimos anos uma onda de exploradores ilegais que derrubam florestas, envenenam rios e levam doen\u00e7as mortais para a comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNossa terra est\u00e1 sendo novamente invadida. Nossos rios est\u00e3o sendo novamente polu\u00eddos pelo merc\u00fario\u201d, reflete Davi Kopenawa, l\u00edder yanomami que dedica sua vida a proteger os direitos e as terras ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A cobi\u00e7a traz morte para a Amaz\u00f4nia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Os Yanomami e as autoridades locais estimam que existam mais de 20 mil mineradores ilegais \u2013conhecidos localmente como garimpeiros&#8211; em sua terra natal, embora o territ\u00f3rio yanomami seja uma \u00e1rea protegida nacionalmente onde a minera\u00e7\u00e3o \u00e9 proibida.<\/p>\n\n\n\n<p>Joenia Wapichana, a \u00fanica mulher ind\u00edgena eleita no Congresso brasileiro, pensa que a devasta\u00e7\u00e3o causada pelos garimpeiros e os poderosos interesses econ\u00f4micos empenhados na explora\u00e7\u00e3o da floresta representam uma amea\u00e7a tanto para a biodiversidade quanto para a pr\u00f3pria exist\u00eancia da vida ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO n\u00famero de invasores aumentou, tanto madeireiros quanto garimpeiros que est\u00e3o a servi\u00e7o de pessoas com muito poder econ\u00f4mico. O crime organizado tamb\u00e9m come\u00e7a a entrar no territ\u00f3rio. A quest\u00e3o ambiental e de sa\u00fade est\u00e1 se agravando e colocando os ind\u00edgenas em risco de extin\u00e7\u00e3o\u201d, alertou Wapichana.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-1-580x386.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-70262\"\/><figcaption>Garimpeiros cavaram uma enorme cratera para extrair o metal precioso na Amaz\u00f4nia. <strong>Paulo Santos\/Reuters.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A minera\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 devastadora para o meio ambiente da Amaz\u00f4nia, que possui um grande valor espiritual para os povos ind\u00edgenas e \u00e9 a fonte de seu sustento tradicional, de alimentos a medicamentos. \u00c1rvores e habitats s\u00e3o destru\u00eddos, e o merc\u00fario usado para separar o ouro da areia vaza para os rios, envenenando a \u00e1gua e entrando na cadeia alimentar local. O envenenamento por merc\u00fario pode prejudicar os \u00f3rg\u00e3os e causar problemas de desenvolvimento em crian\u00e7as, alertam ativistas locais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desnutri\u00e7\u00e3o e mal\u00e1ria<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Mas os garimpeiros trazem mais problemas al\u00e9m do merc\u00fario. A desnutri\u00e7\u00e3o infantil disparou porque os yanomami, que s\u00e3o em sua maioria ca\u00e7adores e coletores, n\u00e3o podem mais depender de sua dieta tradicional e se tornaram dependentes de alimentos importados com menor valor nutricional. Os casos de mal\u00e1ria tamb\u00e9m aumentaram nos \u00faltimos anos, resultado das crateras cheias de \u00e1gua parada deixadas pelos garimpeiros, que se tornam criadouros de mosquitos que transmitem a doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O abuso sexual contra mulheres e meninas yanomami \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o para os ativistas, enquanto o \u00e1lcool e as drogas trazidas por forasteiros causam estragos nas comunidades, particularmente entre os jovens, criando divis\u00f5es geracionais e agita\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-2-580x386.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-70266\"\/><figcaption>Um grupo de mulheres e meninas participa de uma cerim\u00f4nia na aldeia de Xihopi. <strong>Christian Braga\/ISA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Wapichana, que liderou casos de defesa dos direitos ind\u00edgenas perante o Supremo Tribunal Federal, acusa falta de vontade pol\u00edtica nas autoridades. Ativistas dizem que o n\u00famero de garimpeiros aumentou sob o governo do Presidente Jair Bolsonaro, que prometeu desenvolver economicamente a Amaz\u00f4nia e explorar suas riquezas minerais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO governo brasileiro deve cumprir seu papel protetor, onde todo cidad\u00e3o brasileiro, n\u00e3o apenas os yanomami, se sinta protegido. N\u00e3o \u00e9 um favor, mas uma obriga\u00e7\u00e3o constitucional. \u00c9 preciso coibir os projetos de minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas porque s\u00e3o ilegais perante a lei brasileira\u201d, ressaltou Dario Kopenawa, vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Hutukara Yanomami.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da situa\u00e7\u00e3o dos yanomami, suas lideran\u00e7as dizem estar determinadas a preservar suas comunidades e a rica biodiversidade de suas terras ancestrais. Em uma mensagem para marcar o Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas do Mundo em 9 de agosto, Wapichana pediu aos governos que defendam a Declara\u00e7\u00e3o da ONU sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas, um instrumento internacional abrangente adotado pela Assembleia Geral da ONU em 2007.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Sem nossa terra n\u00e3o existimos, e sem terra n\u00e3o h\u00e1 biodiversidade, rios ou animais. N\u00f3s, ind\u00edgenas, n\u00e3o podemos sobreviver sem terra. N\u00e3o h\u00e1 harmonia, nem sa\u00fade, e n\u00e3o h\u00e1 conhecimento ou movimento do planeta terra&#8221;.<\/p><cite>Dario Kopenawa, vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Hutukara Yanomami.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-3-580x386.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-70272\"\/><figcaption>Xam\u00e3s yanomami realizam ritual na aldeia Xihopi. <strong>Christian Braga\/ISA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Demarca\u00e7\u00e3o: uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os yanomami, que moram em grandes moradias coletivas circulares sob um telhado comunit\u00e1rio de folhas de palmeira e madeira, constru\u00eddas no centro de uma clareira na floresta, j\u00e1 presenciaram invas\u00f5es no passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s protestos mundiais, em 1992 o governo do ent\u00e3o presidente Fernando Collor de Mello concedeu aos yanomami 94 mil quil\u00f4metros quadrados de territ\u00f3rio protegido, uma \u00e1rea quase do tamanho de Portugal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o foi vista como uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica dos direitos ind\u00edgenas. Ap\u00f3s um per\u00edodo de grande sofrimento marcado pela viol\u00eancia, polui\u00e7\u00e3o e afluxo de garimpeiros, o povo yanomami conseguiu se recuperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sydney Possuelo, ent\u00e3o presidente da Funai, \u00f3rg\u00e3o do governo respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas no Brasil, lembra que levou apenas quatro meses para retirar cerca de 40 mil garimpeiros do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO exemplo de 1992 mostra que se o governo quiser retirar os garimpeiros, ele pode\u201d, ele disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um recente encontro na remota aldeia de Xihopi, no cora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio yanomami, lideran\u00e7as ind\u00edgenas e ativistas de direitos humanos comemoraram o 30\u00ba anivers\u00e1rio da demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O evento reuniu representantes de governos e entidades locais e internacionais, que renovaram os apelos para que o Estado brasileiro tome medidas para frear novas invas\u00f5es de garimpeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ONU Direitos Humanos apoia plenamente as demandas leg\u00edtimas dos povos ind\u00edgenas do Brasil para remover os garimpeiros ilegais de seus territ\u00f3rios\u201d, disse Jan Jarab, Representante da ONU Direitos Humanos para a Am\u00e9rica do Sul, que participou do evento. \u201cOs povos ind\u00edgenas s\u00e3o os guardi\u00f5es da floresta amaz\u00f4nica e devem ser protegidos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-4-580x386.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-70276\"\/><figcaption>Crian\u00e7as yanomami assistem a filmes durante as comemora\u00e7\u00f5es dos 30 anos da demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio Yanomami. <strong>Christian Braga\/ISA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Durante quatro dias, os participantes realizaram rituais tradicionais, dan\u00e7aram e compartilharam hist\u00f3rias sob o teto comunit\u00e1rio da aldeia, o&nbsp;<em>shabono<\/em>. \u00c0 noite, as crian\u00e7as sentavam-se no ch\u00e3o com os olhos arregalados para assistir a filmes projetados em uma grande tela. O clima na aldeia era misto: enquanto o anivers\u00e1rio da demarca\u00e7\u00e3o continua sendo motivo de alegria, o presente e o futuro dos yanomami parecem cada vez mais incertos.<\/p>\n\n\n\n<p>Wapichana, que participou da celebra\u00e7\u00e3o, disse que natureza e vida s\u00e3o insepar\u00e1veis&nbsp;\u200b\u200bpara os povos ind\u00edgenas. \u00c0 medida que o planeta enfrenta os efeitos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, o mundo deve aprender dos valores ind\u00edgenas para cuidar de suas florestas e rios e construir um desenvolvimento mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTemos uma responsabilidade com a natureza, o meio ambiente, de trat\u00e1-la como uma m\u00e3e, a m\u00e3e que merece todo cuidado e prote\u00e7\u00e3o, a m\u00e3e que d\u00e1 vida, a m\u00e3e que nos d\u00e1 comida, a m\u00e3e que cuida de todos n\u00f3s.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"386\" src=\"http:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-5-580x386.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-70280\" srcset=\"https:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-5-580x386.jpeg 580w, https:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-5-400x266.jpeg 400w, https:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/story-2022-amazon-ip-5.jpeg 925w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><figcaption>Um arco-\u00edris \u00e9 formado na aldeia Xihopi. <strong>Christian Braga\/ISA<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.ohchr.org\/en\/stories\/2022\/08\/amazon-rainforest-indigenous-tribe-fights-survival\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ONU Direitos Humanos<\/a><\/em><br><em>Tradu\u00e7\u00e3o: ONU Direitos Humanos &#8211; <a href=\"http:\/\/acnudh.org\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Am\u00e9rica do Sul<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Se preocupa com o mundo em que vivemos? Ent\u00e3o DEFENDA os direitos de algu\u00e9m hoje #Standup4humanrights e visite a p\u00e1gina da web em&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.standup4humanrights.org\">http:\/\/www.standup4humanrights.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>9 de agosto de 2022 &#8211; Nas profundezas da floresta amaz\u00f4nica, um povo ind\u00edgena que permaneceu relativamente isolado do mundo exterior est\u00e1 travando uma batalha por sua sobreviv\u00eancia. 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